2. ENTREVISTA 31.10.12

MIKKEL BORCH-JACOBSEN - "FREUD  APENAS UMA LENDA" 

Filsofo e historiador, o professor da Universidade de Washington diz por que considera o pai da psicanlise uma fraude
por Natlia Martino 

OMISSO - "Muitos pacientes de Freud cometeram suicdio e ele nunca disse uma palavra sobre isso", afirma o professor 
 
O filsofo e historiador Mikkel Borch-Jacobsen no se esquiva de uma polmica. A ltima dcada da sua carreira, dedicada aos estudos sobre a histria da psicanlise e da psiquiatria, foi prdiga em livros e opinies controversas que lhe renderam inimigos entre terapeutas do mundo inteiro. Comeou a receber as primeiras crticas severas em 1996 com o lanamento do livro Anna O.  Uma Mistificao Centenria, no qual questionava as avaliaes de Freud sobre uma das suas principais pacientes. Foi tambm um dos autores do Livro Negro da Psicanlise, uma das obras mais barulhentas j lanadas sobre o assunto. Agora, escreveu Os Pacientes de Freud, lanado recentemente no Brasil (Editora Texto e Grafia), no qual reconstri a trajetria de 31 pacientes de Freud. Na obra, ele conta os motivos que os levaram at o analista e, principalmente, como viveram durante e depois do tratamento. A partir de documentos, como cartas trocadas entre o terapeuta e seus amigos e entrevistas confidenciais feitas com os pacientes de Freud, o autor desconstri o mito do criador da psicanlise.

"Os medicamentos foram excludos das histrias que o psicanalista contou, mas muitos pacientes eram viciados em morfina"

"Como Anna iria se curar se seu analista era o prprio pai do qual ela deveria se desligar? Parece bvio, mas ele no percebeu isso"

Isto - O que os relatos que o sr. apresenta em seu livro revelam sobre Freud e a psicanlise?

Mikkel Borch-Jacobsen - As histrias dos pacientes de Freud foram a base das suas teorias. Quando percebemos que elas so falsas, como vemos ao analisar a vida dos pacientes que descrevo no livro, toda a teoria da psicanlise  abalada. O caso apresentado por Freud como sendo de Anna O., que hoje sabemos tratar-se de Bertha Pappenheim, por exemplo,  considerado um dos mais fundamentais para o desenvolvimento da psicanlise. A paciente tinha sintomas graves de histeria que, supostamente, Freud curou com o mtodo catrtico. Mas isso no  verdade. No fim do tratamento, ela j no suportava mais conviver com o problema e foi internada em uma clnica, onde continuou apresentando o mesmo quadro de histeria. Apenas seis ou oito anos depois, Bertha foi considerada curada. No se sabe como ela se curou, mas  bvio que no foi com a psicanlise, ningum se cura por meio de um tratamento finalizado quase uma dcada antes.  

Isto - Os resultados teraputicos eram insuficientes?

Mikkel Borch-Jacobsen - Na maioria dos casos sim. Era comum que as condies dos pacientes piorassem, como no caso de Viktor von Dirsztay, que mais tarde chegou a admitir que a anlise o destruiu. Muitos outros dos seus pacientes cometeram suicdio, como Margit Kremzir e Pauline Silberstein. Claro que qualquer terapeuta est sujeito ao risco de suicdio dos seus pacientes, mas a questo  que Freud nunca disse uma palavra sobre isso. 

Isto - Ele escondia esses fatos?

Mikkel Borch-Jacobsen - Como um bom positivista, Freud sempre afirmou que suas teorias eram baseadas na observao de dados clnicos. Por um longo perodo, porm, tudo o que sabamos sobre esses dados se baseava no que ele escolheu nos mostrar. Ao compararmos essas histrias com a realidade, observamos discrepncias que automaticamente invalidam as concluses de Freud. Os medicamentos, por exemplo, foram sistematicamente excludos das histrias que ele contou, mas muitos dos seus pacientes eram viciados em morfina. Hoje  muito claro que a droga teve em alguns casos um papel essencial no tratamento. Freud dizia, por exemplo, que diante dos ataques histricos de Anna von Lieben, a Ccilie M. citada em Estudos sobre a Histeria, ele conduzia um tratamento hipntico que a fazia se sentir melhor. O que ele no nos contava  que as crises dela eram causadas por abstinncia de drogas e que ela se acalmava quando ele lhe dava uma injeo de morfina. A famosa cura catrtica nada mais era do que cura com morfina. 

Isto - Os diagnsticos dele so questionveis?

Mikkel Borch-Jacobsen - Sim, os diagnsticos que Freud alegava fazer to cuidadosamente escancaram discrepncias entre sua prtica real e suas descries. Quando o pai da jovem Ida Bauer, que Freud eternizou como Dora, a levou at Freud devido a um episdio de asma, o analista instantaneamente diagnosticou neurose. Mas como ele poderia saber? Aquela era a primeira vez que ele a via. H vrios exemplos desse tipo e uma vez que definia seu diagnstico, Freud o mantinha obstinadamente, mesmo que os fatos mostrassem a ele outro caminho. As consequncias dessa postura frequentemente eram bem srias, como quando Freud forou Horace Frink a se divorciar da esposa para se casar com a milionra Angelika Bijur para combater a homossexualidade que o paciente negava vigorosamente. 

Isto - Freud chegava a dar conselhos to diretos aos pacientes?

Mikkel Borch-Jacobsen - Ele intervia diretamente na vida dos seus pacientes e no hesitou em instigar alguns a se casarem e terem filhos, por exemplo. Foi o que aconteceu com Max Graf e Olga Hnig, os pais do pequeno Hans  e o casamento foi um completo desastre. Em outros casos, Freud proibia pacientes de se masturbarem, como no caso da sua filha, Anna Freud. Sempre que essas instrues eram dadas, Freud era a voz da autoridade.  

Isto - Ele acreditava que podia tratar a filha? 

Mikkel Borch-Jacobsen - Freud queria muito ajudar a filha a se desligar dele e isso fica claro em vrias cartas que ele escreveu a amigos. Mas a nica coisa que ele podia oferecer a ela era a psicanlise, o que, obviamente, era a coisa mais estpida que ele poderia fazer. Como ela conseguiria se curar se sua nica ajuda era de um analista que era o prprio pai do qual ela deveria se desligar? Por mais bvio que parea, Freud no percebeu isso. No estou dizendo que ele abusou da filha, de jeito nenhum, ele a amava. Mas estava to convencido de que sabia como ajud-la que no permitiu que ela se libertasse dele. 

Isto - Para Freud, a psicanlise sempre funcionava? 

Mikkel Borch-Jacobsen - Sim, claro, ele acreditava que havia descoberto a cura para as doenas mentais. Freud tinha suposies tericas que o impediam de ver o que estava acontecendo. Ele estava to convencido de que a terapia funcionava que, quando ela no dava certo, ele simplesmente achava que era necessrio ir mais fundo no inconsciente. S no fim da sua vida, em seus ltimos artigos, ele admitiu que os mtodos eram inconclusivos em alguns casos. 

Isto - Mas em algum momento ele foi deliberadamente negligente ou desumano com seus pacientes?

Mikkel Borch-Jacobsen - Sim, a forma como ele sacrificava seus pacientes no altar das suas teorias  vergonhosa. Marie von Ferstel, por exemplo. Ela era uma mulher rica que sofria de fobias e de constipao. Freud disse a ela que, para resolver esses problemas, ela teria que aprender a se desapegar, por exemplo, do dinheiro. O que ela fez? Transferiu para ele o ttulo de uma das suas propriedades, que ele prontamente vendeu. Eu acho isso imperdovel. Freud simplesmente no era uma pessoa admirvel. 

Isto - De que forma essas revelaes atingem a psicanlise hoje?

Mikkel Borch-Jacobsen - No vejo como salvar a psicanlise diante de tudo isso. Eu sei que muitas pessoas admiram Freud como um pensador independentemente das vicissitudes de sua prtica. Tambm acho que ele era um gnio, tinha ideias realmente incrveis. Mas as suas teorias so contraditrias demais s suas prticas para serem levadas a srio. 

Isto - O sr. aponta essas contradies em 31 casos e Freud atendeu pelo menos cinco vezes mais pacientes. No poderia ser coincidncia?

Mikkel Borch-Jacobsen - Uma das minhas principais fontes de pesquisa foram as entrevistas com pacientes de Freud conduzidas por Kurt Eissler, que era secretrio do Arquivos de Freud. Esse material ficou inacessvel at 1999, quando Eissler morreu e, a partir da, comeou a ser colocado em domnio pblico, processo que s deve acabar em 2057. Eissler tinha enorme interesse em defender a memria do pai da psicanlise e se essas entrevistas fossem positivas no teriam sido tornadas confidenciais. Muita coisa ainda ser revelada, possivelmente conseguiremos rastrear outros pacientes, mas no acho que as novas histrias iro contradizer as estatsticas que j temos.

Isto - Muitas pessoas afirmam hoje ter encontrado conforto na psicanlise. No h nenhum valor nisso?  

Mikkel Borch-Jacobsen - No meu ponto de vista, neuroses, como histeria e obsesso, no so doenas mentais, so pedidos de socorro. A anlise cumpre, nesses casos, o papel que a religio cumpria antes. As pessoas iam at o padre para buscar respostas e as encontravam. Qualquer uma das centenas de tipos de psicoterapias que existem hoje pode cumprir esse papel. Reconheo que, em alguns casos, pessoas com problemas pessoais podem encontrar conforto no div. 

Isto - Mas seus livros parecem tentar destruir a psicanlise.

Mikkel Borch-Jacobsen - Eu sou um acadmico e meu nico interesse  separar as verdades das lendas. Freud  apenas uma lenda. Ele reescreveu a histria de acordo com seus propsitos pessoais.

Isto - Essa sua postura crtica em relao  psicanlise acompanhou toda a sua carreira? 

Mikkel Borch-Jacobsen - No, no incio eu era simptico  psicanlise e tinha interesse especial na escola Lacaniana. 

Isto - E o que essa mudana significou profissionalmente? 

Mikkel Borch-Jacobsen - Eu era constantemente convidado para conferncias e para escrever artigos em revistas at que eu publiquei meu primeiro livro mais crtico sobre Freud. A partir desse momento, no fui mais convidado para nada. No se pode ser crtico  psicanlise sem sofrer as consequncias disso. 

Isto - O sr. tambm estudou a psiquiatria. Acredita que esse  um caminho mais vlido para tratar doenas mentais?

Mikkel Borch-Jacobsen - A psiquiatria no  uma teoria nica, mas, de forma geral, fez enormes progressos, como se v, por exemplo, nos diagnsticos de esquizofrenia, depresso e outras doenas. Do ponto de vista da cura, porm, ela no avanou. Temos vrias drogas hoje que nos permitem controlar certos sintomas das doenas mentais, mas ainda no h cura para elas e nem mesmo se conhece suas causas. A psiquiatria tenta encontrar solues, mas ainda no foi bem-sucedida. 

Isto - Qual  o prximo mito que o sr. pretende desbancar?

Mikkel Borch-Jacobsen - Agora estou estudando a indstria farmacutica. Sou muito crtico com as drogas psiquitricas e, por isso, estou pesquisando esse universo do ponto de vista histrico.  


